OutroBanco De Portugal16 de outubro de 2026

Estudo do Banco de Portugal defende maior resposta da oferta para travar a crise da habitação

Um estudo publicado na Revista de Estudos Económicos do Banco de Portugal conclui que os choques de procura fazem subir mais os preços do que as rendas, o que reforça a necessidade de aumentar a capacidade de resposta da oferta. A análise salienta que os municípios com menos habitação disponível, como Lisboa e Porto, sofrem aumentos substancialmente maiores de preços e rendas.

Estudo do Banco de Portugal defende maior resposta da oferta para travar a crise da habitação

Um estudo divulgado esta quinta-feira pelo Banco de Portugal (BdP) alerta que a crise habitacional não se resolve "através de políticas do lado da procura", à medida que o aumento da procura conduz a subidas nos preços, nas rendas e no rácio preço-renda das casas.

A análise, publicada na Revista de Estudos Económicos do Banco de Portugal e assinada por João Amador, conclui que um aumento de 1% na procura de habitação faz subir os preços das casas em cerca de 0,69% e as rendas em cerca de 0,37%, aumentando também o rácio preço-renda. O efeito sobre os preços é consideravelmente maior do que o efeito sobre as rendas, o que indica, segundo o estudo, que os choques positivos da procura se capitalizam de forma mais intensa no valor da habitação enquanto ativo do que no custo de arrendamento.

Por isso, o documento conclui que as políticas destinadas a melhorar a acessibilidade à habitação "deverão prestar particular atenção ao aumento da capacidade de resposta da oferta". São os municípios com menos oferta habitacional os que registam aumentos substancialmente maiores de preços e rendas, com destaque para Lisboa e Porto, face aos concelhos com menos habitantes, onde a oferta consegue ajustar-se mais facilmente.

O estudo identifica fatores demográficos — como a migração, os agregados familiares, o rendimento, as condições de financiamento, a fiscalidade, o turismo e as alterações nas preferências habitacionais — como motores da procura. A região do Algarve é citada como exemplo de uma oferta inelástica que se confronta com procura proveniente de fontes não residentes e orientadas para o investimento. Face ao aumento acentuado dos preços e das rendas, sobretudo a partir de 2022, a construção de habitação manteve-se comparativamente contida, o que suscita preocupações quanto a restrições de oferta a amplificarem os efeitos do aumento da procura. O trabalho refere ainda que a escassez de dados estatísticos condicionou a análise, que abrange preços, rendas, parque habitacional e número de novas famílias nos municípios portugueses entre 2017 e 2024.

Porque importa

O estudo do banco central coloca o foco na oferta habitacional, um dos fatores estruturais da pressão sobre preços e rendas nos maiores centros urbanos. Ao quantificar o impacto de choques de procura e a diferenciação entre municípios, oferece uma base de dados para orientar políticas de habitação e para a leitura das restrições de construção em Portugal.

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